Google e Terradot levam projeto de carbono a 200 mil hectares no RS

Acordo prevê créditos separados para evitar 1 milhão de toneladas de CO₂ equivalente em metano até 2030 e remover outro 1 milhão de toneladas de CO₂ até 2040; preço não foi divulgado.
Google e Terradot anunciaram em 16 de setembro um acordo para desenvolver, em mais de 200 mil hectares de arrozais do Rio Grande do Sul, um projeto que combina redução de emissões de metano e remoção de dióxido de carbono da atmosfera. A iniciativa é apresentada pelas empresas como o maior contrato de remoção de carbono já firmado pelo Google e deverá começar sua expansão comercial em 2028.
O desenho reúne duas intervenções distintas no mesmo território agrícola. A primeira modifica o manejo da água nos arrozais para reduzir a formação de metano. A segunda espalha pó de rocha reativa sobre o solo para acelerar um processo natural que retira dióxido de carbono do ar e o transforma em compostos estáveis.
O acordo prevê a geração de 1 milhão de toneladas métricas de créditos de abatimento de metano até 2030 e 1 milhão de toneladas de créditos de remoção de carbono até 2040. São metas futuras, não reduções já entregues. Os dois resultados serão contabilizados e verificados separadamente, porque evitar uma emissão e retirar um gás já presente na atmosfera são benefícios climáticos diferentes.
Duas entregas climáticas, dois tipos de crédito
Nos arrozais permanentemente alagados, microrganismos produzem metano em ambiente com pouco oxigênio. A prática de umedecimento e secagem alternados drena os campos em períodos controlados e reduz essas condições. Sua adoção depende de infraestrutura de irrigação, calendário agronômico, assistência técnica e monitoramento para que a economia de água e o corte de emissões não prejudiquem a produtividade.
O metano permanece menos tempo na atmosfera do que o dióxido de carbono, mas retém muito mais calor no curto prazo. Por isso, sua redução pode desacelerar o aquecimento mais rapidamente. O crédito associado ao manejo dos arrozais será expresso em tonelada de dióxido de carbono equivalente, unidade que converte o efeito de diferentes gases para uma base comum.
A remoção de longo prazo virá do intemperismo acelerado de rochas. A Terradot pretende triturar material basáltico e aplicá-lo em áreas agrícolas. Em contato com água e dióxido de carbono, os minerais reagem e formam bicarbonato, que pode transportar o carbono dissolvido até rios e oceanos e mantê-lo fora da atmosfera por longos períodos.
Intemperismo exige logística e medição
Essa tecnologia cria uma cadeia física de infraestrutura: seleção e análise de rochas, britagem, transporte, armazenamento, aplicação no campo e amostragem de solo e água. A distância entre pedreiras e lavouras influencia o custo e as emissões logísticas. Também é necessário controlar granulometria, composição mineral e possíveis elementos indesejados antes da aplicação.
A escala anunciada é relevante, mas não substitui a verificação. A quantidade efetivamente removida depende do clima, do solo, do tipo de rocha e da velocidade das reações químicas. Medições em campo, modelos e auditoria independente serão necessários para transformar estimativas em créditos que possam ser comprados e posteriormente aposentados sem dupla contagem.
Google e Terradot não divulgaram o valor do contrato, o preço por tonelada, o calendário de pagamentos, a metodologia que registrará os créditos nem a remuneração destinada aos produtores. A ausência desses dados impede comparar o compromisso financeiro com outros contratos ou calcular quanto do investimento chegará à infraestrutura rural e à logística mineral.
Preço e cronograma comercial permanecem abertos
Como referência, um contrato público de 2024 da Terradot para 90 mil toneladas implicava preço próximo de US$ 300 por tonelada. A companhia disse à Reuters que o novo projeto será mais barato, mas ainda acima de US$ 100 por tonelada, patamar que desenvolvedores buscam para ampliar a demanda. A comparação é apenas indicativa: os contratos têm escala, prazo e estrutura de verificação diferentes.
A Terradot afirma que a verificação pode acrescentar mais de US$ 100 ao custo de cada tonelada em projetos de intemperismo acelerado. No novo modelo, a empresa pretende acumular remoções por mais tempo antes da auditoria independente. Isso pode reduzir o custo unitário, mas alonga o intervalo entre a aplicação do material, a confirmação do resultado e a emissão do crédito.
O Google já era investidor da Terradot desde 2024 e amplia sua contratação em meio ao crescimento das emissões associado à inteligência artificial e aos centros de dados. A compra de créditos não equivale a neutralizar imediatamente essas emissões: o benefício depende da execução agrícola, da medição, da certificação e da aposentadoria dos créditos, além da redução direta das emissões nas próprias operações da empresa.
Efeitos práticos e próximos passos
Para produtores gaúchos, o projeto pode financiar melhorias no manejo de água, assistência técnica e novas receitas ambientais, mas os contratos precisarão definir responsabilidades por produtividade, permanência, dados e riscos climáticos. Para pedreiras e operadores logísticos, a expansão cria demanda potencial por material com especificação controlada e transporte de grande volume.
A Terradot pretende testar o modelo em outros países ainda em 2026 e iniciar a expansão comercial em 2028. No Brasil, as empresas veem potencial de aplicação em até 1,5 milhão de hectares de arroz. Antes disso, será necessário identificar as áreas participantes, instalar ou adaptar sistemas de irrigação, estabelecer a metodologia de verificação e demonstrar que as duas classes de crédito podem ser entregues nos prazos anunciados.
