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Yara inicia maior captura industrial de carbono da Europa

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Ilustração editorial da cadeia de captura de carbono em indústria, transporte marítimo e armazenamento geológico no Mar do Norte
Ilustração editorial produzida por inteligência artificial para o LAWINFRA; não reproduz a planta, o navio, o poço ou a configuração real do projeto Yara–Northern Lights. Crédito: LAWINFRA/IA.

Instalação pode capturar e liquefazer até 800 mil toneladas de CO₂ por ano; navios levarão o gás aos poços da Northern Lights, 2,6 quilômetros sob o leito do Mar do Norte.

A Yara iniciou nesta segunda-feira (7) a operação da maior instalação comercial de captura industrial de carbono da Europa, integrada à fábrica de amônia e fertilizantes de Sluiskil, nos Países Baixos. O empreendimento conecta a retirada e a liquefação do dióxido de carbono, ou CO₂, ao transporte marítimo e à estocagem permanente sob o leito do Mar do Norte, na Noruega.

A cadeia é apresentada pela Comissão Europeia e pelas empresas como o primeiro sistema transfronteiriço completo de captura, transporte e armazenamento permanente em operação. A sigla CCS vem do inglês carbon capture and storage, ou captura e armazenamento de carbono. Diferentemente do uso industrial do CO₂, o objetivo aqui é confinar o gás em formação geológica para evitar sua liberação à atmosfera.

A unidade de Sluiskil pode capturar e liquefazer até 800 mil toneladas por ano provenientes da produção de amônia. Nesse processo industrial, baseado em reforma de metano a vapor, o CO₂ é gerado como corrente concentrada. A infraestrutura implantada pela Yara abrange liquefação, tanques com capacidade total de 15 mil toneladas, carregamento de navios e fornecimento elétrico no cais.

A logística será executada pela Northern Lights. Dois navios, com capacidade de 7.200 toneladas cada, deverão fazer até dois carregamentos por semana. O CO₂ liquefeito seguirá até o terminal de recebimento de Øygarden, na costa oeste da Noruega; dali, um duto o levará ao poço de injeção e a um reservatório aproximadamente 2,6 quilômetros abaixo do fundo do mar.

Os 800 mil toneladas anuais representam capacidade máxima, não volume já capturado e certificado. A própria Yara condiciona o total projetado de cerca de 12 milhões de toneladas em 15 anos à existência de condições regulatórias e econômicas adequadas. Desempenho real dependerá da disponibilidade da fábrica, da eficiência da captura, da programação dos navios, da capacidade de injeção e da aceitação dos volumes pelo operador do armazenamento.

A distinção é relevante porque a inauguração demonstra que a cadeia física entrou em operação, mas não comprova antecipadamente a redução acumulada. Para que cada tonelada seja reconhecida como emissão evitada, serão necessários medição, reporte e verificação desde o ponto de captura até a injeção, além de controle de perdas no condicionamento, no transporte e no armazenamento.

O projeto também tem componente econômico. Segundo a Yara, a captura evita a incidência do preço europeu do carbono sobre os volumes efetivamente armazenados e reduz a pegada de fertilizantes e amônia. O benefício líquido, contudo, depende do custo de capturar, liquefazer, transportar e injetar o CO₂ em comparação com o custo de comprar permissões no Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia, conhecido pela sigla EU ETS.

A infraestrutura da Northern Lights foi estruturada para prestar transporte e armazenamento como serviço. A primeira fase integra o programa norueguês Longship e o sistema recebeu apoio público; a Comissão Europeia informa que a instalação também foi financiada pela União Europeia no âmbito do Mecanismo Interligar a Europa. A presença de recursos públicos procura reduzir o risco inicial de uma rede que precisa de escala e usuários recorrentes.

O contrato comercial vinculante entre Yara e Northern Lights foi assinado em 2023. A passagem do acordo à operação é o fato que diferencia a notícia de uma promessa de investimento. Ainda assim, a sustentabilidade financeira exige utilização continuada dos ativos, capacidade de receber novos emissores e regras claras para preço, qualidade do CO₂, responsabilidade durante o transporte e aceitação no reservatório.

Armazenamento geológico não encerra a obrigação ambiental no momento da injeção. O operador precisa acompanhar pressão, integridade de poços, deslocamento da pluma e possíveis vazamentos, manter planos de contingência e demonstrar permanência. Também é necessário contabilizar a energia consumida pela captura e pela liquefação e as emissões da navegação para aferir a redução líquida do ciclo completo.

A experiência europeia dialoga diretamente com o marco brasileiro. O Decreto nº 13.095, de 12 de agosto de 2026, atribuiu à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP, a autorização e a fiscalização da captura, do transporte por dutos e da estocagem geológica de CO₂. A norma incentiva hubs multiusuários, exige livre acesso, transparência e não discriminação e permite garantias financeiras para operação, descomissionamento e monitoramento.

Há uma diferença logística importante. O decreto brasileiro trata expressamente do transporte por dutos, enquanto o caso Yara–Northern Lights utiliza navios entre países. Para desenvolver corredores marítimos de CO₂, o Brasil precisará coordenar competências portuárias, marítimas, ambientais e de armazenamento, definir a custódia do gás durante a viagem e compatibilizar contratos de longo prazo com a responsabilidade por vazamentos.

Os próximos indicadores verificáveis são as primeiras cargas comerciais, o volume mensal efetivamente injetado, a disponibilidade dos navios, a taxa de captura da planta e os relatórios de monitoramento do reservatório. A entrada em operação transforma Sluiskil em referência concreta de infraestrutura compartilhada; o teste decisivo será sustentar segurança, escala e custo competitivo ao longo dos 15 anos do contrato.