LAWINFRATODAS AS NOTÍCIAS →

Trem do Nordeste de 1.400 km ainda não tem traçado, custo nem modelo financeiro

COMPARTILHE
Ilustração editorial de trem de passageiros em corredor costeiro nordestino com camadas conceituais de planejamento
Corredor ferroviário de passageiros em ilustração editorial original produzida por inteligência artificial; a cena é conceitual e não representa obra iniciada ou traçado definido. Crédito: LAWINFRA/IA.

Plano eleitoral propõe ligar sete capitais por ferrovia de passageiros. Comparações setoriais sugerem escala de dezenas de bilhões de reais, mas não substituem estudo de demanda, engenharia, desapropriações e subsídios.

O plano de governo do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro propõe viabilizar uma ferrovia de passageiros de 1.400 quilômetros entre Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza. A chamada Trem do Nordeste aparece como instrumento de integração regional, turismo e circulação de pessoas, mas ainda não é um projeto de engenharia ou uma concessão estruturada.

Proposta ainda não é projeto de engenharia

Até o momento, não foram apresentados traçado, estações, tecnologia, velocidade, estimativa de demanda, estudo ambiental, cronograma, orçamento ou matriz de riscos. Também não está definido como a linha atravessaria áreas urbanas densas, onde desapropriações, túneis, viadutos e soluções de acesso podem alterar de forma decisiva o custo e o prazo.

Capital privado não elimina automaticamente gasto público

A campanha sustenta que a implantação poderia usar capital privado, concessões e parcerias público-privadas sem depender diretamente do Orçamento da União. A formulação precisa ser testada: uma parceria público-privada, por definição, pode envolver contraprestações, garantias ou aportes do poder público. Capital privado não elimina automaticamente risco fiscal nem a necessidade de definir quem pagará pela disponibilidade do serviço.

R$ 28 bilhões a R$ 42 bilhões são apenas ordem de grandeza

Uma aproximação divulgada pelo setor aplica valores entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões por quilômetro e produz uma faixa de R$ 28 bilhões a R$ 42 bilhões. Essa conta é apenas uma ordem de grandeza. Não funciona como orçamento porque não incorpora topografia, padrão da via, material rodante, pátios, sistemas de sinalização, eletrificação, estações, desapropriações, contingências e custos financeiros.

Comparação com ferrovia de carga tem limites

A Ferrovia de Integração Centro-Oeste oferece um parâmetro imperfeito: o trecho entre Mara Rosa e Água Boa tem 363 quilômetros e investimento indicado de R$ 10,2 bilhões, aproximadamente R$ 28 milhões por quilômetro. Trata-se, porém, de corredor de carga em outra geografia e com especificações diferentes. A comparação ajuda a dimensionar a escala, mas não permite transpor o preço diretamente para um trem de passageiros costeiro.

Trem Intercidades preservou aporte estatal

O Trem Intercidades São Paulo–Campinas mostra outro ponto crítico. O projeto foi leiloado com investimento total anunciado de R$ 14,2 bilhões e aporte estadual de R$ 8,98 bilhões. Mesmo em eixo populoso, com demanda diária elevada e infraestrutura ferroviária existente em parte do corredor, a modelagem preservou participação pública relevante.

Tarifa e subsídio exigem modelagem

Para uma linha de passageiros de longa distância, a tarifa precisa equilibrar acessibilidade e cobertura de custos. Se o preço for alto demais, reduz a demanda; se for baixo demais, pode exigir subsídio operacional. Receitas acessórias, exploração imobiliária, integração com aeroportos e rodoviárias, turismo e serviços nas estações podem melhorar a equação, mas precisam ser demonstradas em estudo de demanda e modelagem econômico-financeira.

Pré-viabilidade é o próximo marco

O próximo passo tecnicamente verificável não é o início da obra, mas a elaboração de estudos de pré-viabilidade: demanda por pares de cidades, alternativas de traçado, tempo de viagem, estimativa de capital e operação, fontes de receita, impacto tarifário, licenciamento, desapropriações e divisão de riscos. Somente depois será possível decidir se o corredor deve ser uma linha única, uma rede por etapas ou um conjunto de ligações regionais independentes.

Integração regional depende de execução demonstrável

A proposta tem mérito como agenda de integração e transporte de passageiros, área historicamente pouco atendida pela política ferroviária brasileira. A distância entre agenda e execução, porém, permanece grande. Sem estudos e responsabilidades financeiras definidas, os 1.400 quilômetros são uma diretriz eleitoral, não uma obra contratada nem um investimento assegurado.