Níveis baixos põem Madeira, Tapajós e Paraguai em alerta para a navegação

Relatório federal registra cotas críticas em corredores da Amazônia e do Pantanal. O alerta não equivale a emergência ou suspensão geral, e dragagens têm limites operacionais e socioambientais.
A queda dos níveis dos rios colocou trechos das hidrovias do Madeira, do Tapajós e do Paraguai em situação de alerta para a navegação. A avaliação consta de relatório de outubro do Ministério de Portos e Aeroportos, obtido pela Folha de S.Paulo e divulgado neste domingo, 18 de outubro. O documento reúne medições de 30 de setembro e referências atualizadas até 5 de outubro.
O alerta descreve risco operacional, não uma emergência formal nem uma suspensão geral das rotas. Restrições de calado, redução de carga e eventual interrupção dependem da cota de cada trecho, das regras de segurança e da evolução das chuvas. A distinção é decisiva para não transformar monitoramento preventivo em anúncio de paralisação já consumada.
Madeira abaixo da referência para restrições
No Madeira, a régua de Porto Velho marcava 3,07 metros em 30 de setembro. O relatório usa 4 metros como referência para o início de restrições e 2 metros como nível em que a navegação pode parar. O corredor transportou 12,1 milhões de toneladas de soja e milho em 2025, segundo os dados reproduzidos na apuração, o que amplia o impacto potencial de uma janela de águas baixas sobre fretes, embarques e estoques.
Tapajós combina baixa profundidade e impasse socioambiental
No Tapajós, as profundidades chegaram a 3,15 metros em Itapaiúna e 2,99 metros em Monte Cristo. As réguas registravam 2,40 metros em Itaituba e 2,63 metros em Santarém. O corredor movimentou 2,38 milhões de toneladas apenas em janeiro e fevereiro de 2026, com soja e milho respondendo por 86% do total.
O edital de R$ 74,8 milhões para dragagem de manutenção no Tapajós foi cancelado após revisão técnica, de acordo com a reportagem, depois de diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais contrários à intervenção. O cancelamento não autoriza concluir que o projeto foi abandonado definitivamente: eventual retomada exigirá novo marco administrativo, avaliação técnica e tratamento adequado das questões ambientais e de consulta.
Condições variam entre os rios amazônicos
O quadro não é uniforme na Amazônia. O rio Negro, em Manaus, estava em 18,80 metros depois de cair 5,21 metros em setembro, mas permanecia acima do patamar observado na estiagem de 2024. No Solimões, o relatório descreveu situação mais favorável. O monitoramento por trecho evita que uma cota isolada seja projetada sobre toda a bacia.
Paraguai entra na faixa de seca extrema
No rio Paraguai, as medições também ficaram abaixo das medianas históricas. Cáceres registrava 0,77 metro, ante mediana de 1,42 metro; Ladário, 1,18 metro, ante 2,55 metros; e Porto Murtinho, 2,38 metros, ante 4,48 metros. A previsão apontava seca extrema e cotas inferiores a 1 metro em Ladário entre outubro e novembro.
A experiência recente mostra a sensibilidade econômica do corredor. Em 2024, a movimentação no rio Paraguai caiu para 3,3 milhões de toneladas, redução de 58%, segundo a série citada no relatório. Para o trimestre de outubro a dezembro de 2026, a expectativa de menos chuva em partes da Amazônia tende a pressionar a disponibilidade hídrica do Madeira, do Negro e do Tapajós.
Contratos de dragagem não eliminam o risco
O governo informou que mantém contratos de obras e supervisão. No Amazonas e no Solimões, oito contratos somam R$ 459,48 milhões. Para o Madeira, foram indicados R$ 123,26 milhões em obras e uma licitação de R$ 29,08 milhões para supervisão. No Paraguai, a carteira inclui R$ 69,6 milhões em obras, R$ 15,42 milhões em supervisão e R$ 9,57 milhões em acompanhamento ambiental.
O DNIT já havia emitido ordens de serviço para dragagem de manutenção em quatro segmentos hidroviários do Amazonas, com contratos de cinco anos e início previsto para setembro. No rio Paraguai, o departamento iniciou em fevereiro campanha para remover aproximadamente 1 milhão de metros cúbicos de sedimentos em 25 pontos do tramo norte. O Acordo de Cooperação Técnica 002/2026, publicado em 5 de outubro, prevê estudos e eventual manutenção excepcional em 590 quilômetros entre Corumbá e o rio Apa, inclusive no canal do Tamengo, sem transferência de recursos.
Dragagem de manutenção remove sedimentos acumulados e procura restabelecer condições de navegação; não aprofunda automaticamente o leito além dos parâmetros autorizados nem substitui chuva. Por isso, contratos em vigor reduzem gargalos localizados, mas não eliminam a possibilidade de comboios mais leves, janelas menores de operação ou interrupções quando a cota fica abaixo dos limites de segurança.
O que acompanhar nas próximas semanas
Os próximos indicadores verificáveis são as novas cotas das réguas, as restrições efetivamente comunicadas pela autoridade marítima e pelos operadores, a execução física das dragagens e eventual nova decisão sobre o Tapajós. Até que esses marcos ocorram, o cenário exige preparação logística e transparência contratual, sem tratar projeção de seca como fechamento consumado das hidrovias.
