EPE propõe levar risco climático à localização e ao reforço da rede elétrica

Roadmap reúne seis estratégias para geração, transmissão e consumo. Documento recomenda rever critérios de planejamento, mas não fixa obrigação, cronograma ou orçamento.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicou nesta quarta-feira, 14 de outubro, um Roadmap para incorporar riscos climáticos ao planejamento do sistema elétrico brasileiro. O documento recomenda que localização e dimensionamento de novos empreendimentos considerem cenários futuros de temperatura, chuva, vento e eventos extremos, em vez de depender apenas de séries históricas.
A proposta alcança geração, transmissão e demanda. Para a infraestrutura, a EPE sugere reforçar ativos, ampliar redundâncias, usar materiais mais resistentes, expandir a capacidade de armazenamento e reforçar a rede de transmissão. O objetivo é preservar o suprimento e acelerar a recomposição depois de secas, chuvas intensas, ventos severos e ondas de calor.
O Roadmap não é uma resolução nem um plano de obras aprovado. Ele não define responsáveis por cada medida, cronograma de execução, orçamento ou mecanismo tarifário. A passagem das recomendações para regras, leilões e investimentos ainda dependerá de decisões do Ministério de Minas e Energia, da ANEEL, do ONS e de outros agentes.
Cenários, não previsões
A EPE estruturou o trabalho a partir de uma metodologia de risco que combina ameaça climática, exposição e vulnerabilidade. O estudo utiliza quatro trajetórias do projeto CMIP6, de baixa a muito alta emissão, mas ressalva que esses cenários não são previsões determinísticas. A leitura deve orientar decisões robustas e ajustáveis à medida que novos dados surgirem.
A elevada participação de fontes renováveis aumenta a exposição do sistema às condições meteorológicas. Segundo o relatório, 87% da matriz elétrica era renovável em 2025. Ao mesmo tempo, a expansão de eólica, solar, geração distribuída e armazenamento adiciona flexibilidade, mas torna a coordenação da operação e da rede mais complexa.
Seis estratégias para o sistema
O documento organiza seis estratégias: integrar planejamento e ciência do clima; fortalecer infraestrutura e inovação; gerir demanda e eficiência energética; tornar a operação mais resiliente; aperfeiçoar governança institucional; e melhorar dados climáticos e energéticos. As medidas cobrem prevenção, resposta a eventos e recuperação.
Entre as recomendações para novos projetos, a EPE propõe reavaliar critérios de planejamento, desenvolver metodologias para medir a resiliência de ativos e incorporar riscos climáticos à localização dos empreendimentos. Para instalações existentes, sugere reforços, redundâncias e equipamentos capazes de operar em condições futuras mais severas.
Demanda e tarifa entram na equação
Pelo lado do consumo, o Roadmap recomenda programas de resposta da demanda, sinais econômicos para períodos críticos, redes inteligentes e medição avançada. Essas medidas podem reduzir a pressão sobre o sistema, mas sua implementação exigirá desenho regulatório, proteção ao consumidor e avaliação dos custos de implantação.
A própria EPE aponta o principal contraponto econômico: resiliência precisa ser conciliada com modicidade tarifária. O estudo também reconhece lacunas de dados, incertezas dos modelos, conflitos pelo uso da água e dificuldade de medir efeitos em cascata. Sem análise de custo e benefício, uma obra classificada como resiliente não é automaticamente eficiente.
O que acompanhar
A publicação conclui a ação de curto prazo CP17 do Plano de Recuperação dos Reservatórios de Regularização, previsto a partir do artigo 30 da Lei 14.182/2021. O próximo marco verificável será a conversão das estratégias em critérios de planejamento, normas, projetos e mecanismos de contratação. Até lá, o Roadmap funciona como orientação técnica, não como carteira contratada de investimentos.
