Google e McKinsey contratam créditos de carbono de projeto silvipastoril no Brasil

Acordos de dez anos somam 320 mil toneladas de remoção e devem apoiar 8,7 mil hectares. Créditos ainda dependerão de implantação, medição e verificação.
Google e McKinsey concordaram em comprar, ao longo de dez anos, 320 mil toneladas de créditos de remoção de carbono vinculados a um projeto silvipastoril no Brasil. A informação foi divulgada nesta segunda-feira, 19 de outubro, pela Reuters, que atribuiu os termos à Symbiosis Coalition.
Os contratos devem apoiar uma iniciativa da empresa Working Trees para converter pastagens degradadas e semidegradadas em sistemas que combinam árvores e pecuária nas transições entre Amazônia e Cerrado. A etapa associada aos acordos alcança 8,7 mil hectares e integra um projeto mais amplo de 50 mil hectares.
Como a silvipastura remove carbono
Silvipastura é a integração planejada de árvores à pastagem. O desenho mantém áreas para o gado e acrescenta espécies nativas e comerciais. A remoção ocorre à medida que a vegetação cresce e incorpora carbono à biomassa e ao solo; por isso, o crédito não nasce apenas da assinatura do contrato.
Contrato não equivale a crédito entregue
Os 320 mil créditos representam um compromisso de compra futura, e não remoção já medida ou entregue. Para se converterem em unidades utilizáveis pelos compradores, as reduções ou remoções precisarão observar metodologia aplicável, linha de base, adicionalidade, monitoramento, verificação independente, regras contra dupla contagem e tratamento do risco de reversão.
A Reuters não informou o preço dos créditos, o cronograma anual de entregas, a localização individual das propriedades nem o padrão de certificação do projeto. Esses elementos serão relevantes para calcular o financiamento efetivo e avaliar a qualidade ambiental de cada emissão.
Receita combina carbono, pecuária e madeira
A Working Trees afirmou que pretende plantar fileiras de espécies nativas e de madeira comercial nas pastagens, mantendo espaço para o gado. A receita futura com madeira é apresentada como um incentivo para conservar o sistema depois da queda da receita dos créditos. Essa expectativa depende do manejo, das autorizações, do mercado e das salvaguardas ambientais aplicáveis.
Contratos de longo prazo podem funcionar como âncora de receita para viveiros, plantio, assistência técnica, monitoramento e certificação. Mas o anúncio não equivale a desembolso integral imediato nem comprova, por si só, que toda a área foi restaurada.
Integridade depende de terra, medição e salvaguardas
A operação também exige transparência fundiária e socioambiental. Identificação das propriedades, consentimentos, direitos sobre os créditos, prevenção de deslocamento do desmatamento e repartição de benefícios são pontos que influenciam a integridade do projeto e a segurança jurídica dos compradores.
Para Google e McKinsey, a aquisição integra estratégias voluntárias de compensação e remoção. Críticos desses instrumentos alertam que créditos não devem substituir a redução direta das emissões próprias. A comparação correta separa as duas frentes: cortar emissões na origem e financiar remoções adicionais com qualidade demonstrável.
O que acompanhar agora
Os próximos marcos verificáveis são a identificação das áreas, a implantação das árvores, a divulgação da metodologia e do padrão de certificação, os relatórios de monitoramento, a verificação independente e a primeira emissão ou entrega dos créditos contratados.
Reuters — termos anunciados dos acordos e escala territorial do projeto →
Symbiosis Coalition — critérios gerais para remoções baseadas na natureza →
