EPE estima 8,8 GW de resposta da demanda e propõe mudanças no mercado

Estimativa para indústria e cogeração varia de 5,9 GW a 13,1 GW; capacidade contratada hoje é de 344 MW, e recomendações ainda dependem de decisões regulatórias.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estimou em 8,8 gigawatts (GW) o potencial de resposta da demanda no Brasil no cenário de referência, considerando grandes consumidores industriais e unidades de cogeração. A estimativa foi publicada em 18 de setembro na Nota Técnica DEA-DEE/SEE-SGR/001/2026, que também propõe mudanças nos mecanismos de contratação para ampliar o uso desse recurso pelo Sistema Interligado Nacional (SIN).
Resposta da demanda é a redução ou o deslocamento voluntário do consumo de eletricidade, ou o uso temporário de cogeração, em troca de remuneração e segundo condições previamente contratadas. Em vez de acionar geração adicional nos momentos de maior necessidade, o operador pode obter flexibilidade de consumidores que consigam reorganizar processos sem comprometer sua atividade principal.
O estudo atende a uma deliberação do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), tomada em 2 de setembro, para dar continuidade e aperfeiçoar os mecanismos a partir de 2027. A nota não cria um novo programa, não convoca leilão e não obriga consumidores a reduzir carga; ela fornece diagnóstico e recomendações para decisões posteriores.
Potencial é diferente de capacidade contratada
A faixa estimada pela EPE vai de 5,9 GW no cenário conservador a 13,1 GW no otimista. No cenário de referência, cerca de 4,1 GW estão na indústria e aproximadamente 4,7 GW na cogeração. Entre os segmentos analisados aparecem aço, alumínio, alumina, cimento, cloro, papel, ferroligas, data centers, bagaço de cana, resíduos de madeira, biogás e gases de processo.
Esse potencial não equivale à quantidade disponível para despacho imediato. O mecanismo competitivo realizado em julho de 2026 contratou 344 megawatts (MW), cerca de 0,3% do recorde de demanda instantânea do SIN. Nos cálculos da EPE, os cenários de potencial representam de 5,6% a 12,4% desse pico, mas a conversão em capacidade efetiva depende de adesão, medição, preço e requisitos operacionais.
A estimativa industrial parte do consumo elétrico, de fatores de carga e da disposição de cada atividade para ajustar processos. A nota considera consumidores com demanda faturada máxima superior a 5 MW e aplica fatores de aceitabilidade por segmento. Para data centers, a EPE usou levantamento individualizado de projetos, reconhecendo que a carga instalada pode superar aproximações baseadas apenas no consumo anual.
Linha de base e preço-teto definem a remuneração
Uma das recomendações centrais é aperfeiçoar a chamada linha de base: a estimativa de quanto o participante consumiria se não fosse acionado. A redução entregue e a remuneração são calculadas contra essa referência. Uma linha de base mal calibrada pode pagar por economia que não ocorreu ou deixar de reconhecer uma resposta efetivamente prestada.
A EPE também propõe rever o preço-teto dos mecanismos competitivos, o modelo e a duração dos contratos e os requisitos técnicos de cada produto. A calibragem precisa atrair consumidores sem criar pagamentos superiores ao valor que a flexibilidade oferece ao sistema. O documento sugere ainda tratamento específico para agregadores e cogeradores.
Os produtos poderão diferenciar tempo de resposta, duração do acionamento, número de ativações, rampa de redução e retomada e períodos mínimos sem novo chamado. Esses parâmetros têm efeito econômico direto: uma indústria capaz de deslocar produção por algumas horas assume risco diferente daquele de um consumidor que só consegue reduzir cargas auxiliares por intervalos curtos.
Quem pode participar e quais são os próximos passos
Para indústrias e grandes consumidores, o estudo abre perspectiva de receita por flexibilidade, mas participar exige medição verificável, capacidade de cumprir comandos e avaliação do custo de alterar a produção. Para cogeradores, será necessário separar a redução do consumo da rede do simples aumento da geração própria e definir como cada resposta será comprovada.
Para o setor elétrico, a resposta da demanda pode reduzir a necessidade de geração cara em períodos críticos e ajudar a acomodar fontes variáveis, como solar e eólica. Ela não substitui automaticamente usinas, transmissão ou armazenamento: o valor depende de disponibilidade no local e no momento em que o SIN precisa do recurso.
Os próximos passos cabem ao Ministério de Minas e Energia, à Agência Nacional de Energia Elétrica, ao Operador Nacional do Sistema Elétrico e à Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, dentro de suas competências. Até que novas regras sejam aprovadas e mecanismos sejam realizados, os 8,8 GW devem ser tratados como potencial estimado, e não como contratação confirmada para 2027.
