Azul prevê recuperação mais lenta e mantém capacidade de 2026 abaixo de 2025

CFO estima que a normalização pode levar mais de um ano se o combustível continuar pressionado. Companhia projeta capacidade cerca de 5% menor e diz ter repassado 60% a 65% da alta do querosene às tarifas.
A Azul prevê encerrar 2026 com capacidade aproximadamente 5% menor que a de 2025 e admite que a recuperação operacional pode se estender por mais de um ano se o preço do combustível permanecer pressionado. A avaliação foi feita pelo diretor financeiro da companhia, Antonio Carlos Garcia, em entrevista à Reuters publicada nesta terça-feira, 20 de outubro.
Retomada com frequências e frota existente
Segundo o executivo, a empresa reduziu sua capacidade em mais de 10% no segundo trimestre e pretende retomar crescimento modesto no quarto trimestre. A recomposição deverá ocorrer com aumento de frequências e retorno de aeronaves que já integram a frota, sem expansão agressiva.
A projeção não é anúncio de nova rota, encomenda de aviões ou meta regulatória. Ela descreve o ritmo que a administração considera possível diante do custo do querosene de aviação, da demanda e das obrigações de caixa que permaneceram depois da reestruturação financeira.
Repasse parcial do combustível às tarifas
Garcia afirmou que a Azul repassou aos preços das passagens entre 60% e 65% do aumento do combustível. Isso significa que parte do choque continua absorvida pela operação. Também não implica que todas as tarifas subiram no mesmo percentual: preços variam por rota, antecedência, ocupação e concorrência.
Combustível é um dos principais custos das empresas aéreas e é cotado em ambiente internacional, com impacto do câmbio. Quando a alta não é integralmente transferida às tarifas, margens tendem a se estreitar. Quando o repasse avança, a demanda pode reagir, especialmente em rotas mais sensíveis a preço. A estratégia de capacidade procura equilibrar essas duas pressões.
Caixa ainda carrega efeitos da reestruturação
A Azul saiu do processo de reorganização sob o Chapter 11 em fevereiro de 2026. A empresa chegou a agosto com dívida de R$ 21,4 bilhões, segundo os dados citados pela Reuters. O CFO disse que a operação está próxima de gerar fluxo de caixa livre positivo, mas pagamentos associados à reestruturação ainda limitam a disponibilidade financeira.
O prazo adicional de recuperação, portanto, não decorre apenas da oferta de assentos. A companhia precisa combinar geração de caixa, execução dos pagamentos pactuados, utilização da frota e manutenção de uma malha capaz de sustentar receita sem ampliar rapidamente a exposição ao combustível.
Prioridade declarada é a operação
Garcia também afirmou que o foco está em restabelecer o negócio, e não em fusões. A declaração delimita a prioridade atual, mas não equivale a compromisso permanente nem modifica decisões concorrenciais anteriores. O Cade já aprovou, em outro contexto, acordo comercial entre American Airlines e Azul com salvaguardas para informações estratégicas.
O que acompanhar
Para passageiros e aeroportos, o dado de capacidade indica uma recuperação seletiva. Frequências podem voltar em mercados específicos sem que a oferta total do ano alcance o nível de 2025. Para investidores e credores, os próximos sinais relevantes serão a evolução do preço do combustível, a disciplina tarifária, a ocupação, o fluxo de caixa e o cumprimento dos compromissos da reestruturação.
A companhia não divulgou na entrevista um calendário fechado para normalização. A estimativa de mais de um ano está condicionada à persistência do cenário de combustível e deve ser tratada como projeção da administração. Resultados trimestrais, dados operacionais e comunicações formais poderão confirmar, revisar ou substituir essa trajetória.
