Resistência a data centers nos EUA abre espaço para o Brasil, avalia Sérgio Leverdi
No quadro LAWINFRA desta sexta-feira (6), Sérgio Leverdi defendeu atrair data centers com consumo flexível perto da geração renovável, custos de rede definidos e mais rapidez no licenciamento e na solução de conflitos. Assista à entrevista.
Assista ao quadro LAWINFRA de 6 de novembro
O Brasil pode aproveitar a resistência à expansão dos data centers nos Estados Unidos para receber investimentos e dar uso produtivo à energia renovável que hoje sofre restrições de escoamento. A avaliação é de Sérgio Leverdi, CEO do LAWINFRA, que defendeu planejamento prévio, consumo flexível e regras claras na edição desta sexta-feira (6) do quadro LAWINFRA, no jornal Radar da Times Brasil | CNBC.
A vantagem brasileira, em sua análise, está na possibilidade de organizar a chegada dos empreendimentos antes que os impactos sobre a rede elétrica, a água e as comunidades se transformem em um obstáculo. “Eles primeiro atraíram os data centers para depois criar regra. Nós aqui podemos fazer o contrário”, afirmou.
Como os data centers chegaram às urnas
A conversa partiu das eleições americanas de 3 de novembro. Ao citar as votações locais sobre a instalação de centros de dados e o caso de Ohio, Leverdi relacionou a reação dos eleitores ao consumo de eletricidade e de água. “O que era uma pauta de tecnologia agora virou uma pauta de cidadania”, disse.
O balanço publicado pela Ballotpedia nesta sexta-feira dimensiona essa reação: os resultados de 40 das 41 consultas locais de 3 de novembro favoreceram limites à expansão dos data centers. O conjunto inclui aprovação de restrições e rejeição de propostas que facilitariam os projetos. Ohio concentrou 21 medidas submetidas a voto.
As vantagens que o Brasil pode oferecer
Para Leverdi, o Brasil reúne condições para disputar os investimentos que procuram outros destinos: geração renovável, potencial solar e eólico, disponibilidade de espaço, minerais críticos e conectividade internacional. Na entrevista, destacou os cabos de internet que chegam por Fortaleza e São Paulo e a presença de um polo de data centers no interior paulista.
O executivo apresentou soberania, sustentabilidade e segurança jurídica como os três pilares dessa preparação. Ao tratar da soberania, mencionou a iniciativa de um data center do governo federal e a previsão de R$ 375 milhões para o projeto. A infraestrutura digital foi apresentada como uma oportunidade de participação brasileira na economia da inteligência artificial.
Entenda o projeto de data center soberano e a destinação dos R$ 375 milhões →
Localização e consumo flexível para aproveitar a energia
Questionado sobre o risco de os novos empreendimentos encarecerem a conta de luz, Leverdi defendeu instalá-los perto da geração, em locais onde haja necessidade de consumo, e prever flexibilidade na carga. A proposta é aproveitar energia que hoje deixa de ser produzida ou utilizada por limitações do sistema.
“Em vez de encarecer a tarifa nós podemos dar destino à energia que hoje nós estamos jogando fora”, afirmou. Feito dessa forma, sustentou, o data center pode representar um alívio para a conta de luz. O efeito positivo que ele propõe está associado à localização e ao modo de integração do empreendimento à rede.
O ponto tem relação com os cortes de geração renovável, conhecidos como curtailment. No PAR/PEL 2025, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) analisa grandes consumidores, como data centers e projetos de hidrogênio verde, como possíveis destinos para parte do excedente. O aproveitamento depende das condições da rede e do atendimento das cargas. Na proposta de Leverdi, o consumo flexível acrescenta a possibilidade de ajustar a demanda às necessidades do sistema.
Rede, comunidade e licenciamento precisam entrar na conta
A primeira questão prática levantada pelo CEO foi a divisão dos custos de infraestrutura: “Quem paga o reforço da rede que o data center precisa?”. Para ele, essa resposta deve fazer parte das regras que vão transformar o interesse dos investidores em projetos concretos. Definir o custeio permite que o empreendimento conheça suas obrigações e que o consumidor saiba como a expansão será financiada.
A segunda frente é a relação com as comunidades. Leverdi defendeu explicar onde o projeto será instalado e o que acontecerá com a água e a energia do local. A preocupação conecta a atração do investimento à compreensão dos efeitos sobre a população que vai conviver com a nova estrutura.
No licenciamento ambiental, pediu rigor técnico acompanhado de prazos definidos para a avaliação pelas autoridades. “É importante ter todo o rigor, mas também é preciso ter relógio para isso”, afirmou. A proposta apresentada na entrevista é dar previsibilidade ao tempo de análise, preservando a avaliação ambiental do empreendimento.
Varas especializadas e decisões mais rápidas
O quarto ponto foi o tratamento das disputas. Leverdi propôs um fast track — uma tramitação mais célere — e a criação de varas especializadas para demandas de grandes projetos de infraestrutura. Na sua avaliação, decisões mais rápidas ajudam a dar segurança à execução dos investimentos.
O executivo afirmou que o LAWINFRA está apresentando essas propostas às autoridades para contribuir com as soluções. A agenda reúne, assim, custos da rede, impactos locais, tempo de licenciamento e resposta do Judiciário como partes da preparação para receber os novos empreendimentos.
A disputa pelos investimentos
Ao final da conversa, Leverdi avaliou que a oposição nos Estados Unidos pode acelerar a procura das grandes empresas de tecnologia por outros países. Citou México e Chile entre os destinos disputados e considerou o Brasil a melhor alternativa nesse conjunto, pela combinação de energia renovável, infraestrutura de conectividade e potencial de expansão.
Assista à entrevista no vídeo desta página, a partir de 1h02 da transmissão do jornal Radar. A edição anterior do quadro continua disponível no acervo do LAWINFRA.
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Reveja a edição anterior do quadro LAWINFRA, de 29 de outubro →
