Agroflorestas de cacau na Amazônia recebem R$ 250 milhões do Fundo Clima

Financiamento do Fundo Clima cobre parte de um projeto de R$ 302 milhões para recuperar 4 mil hectares. Metas de produção e remoção de carbono ainda dependem de implantação e verificação.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou nesta segunda-feira, 19 de outubro, R$ 250 milhões do Fundo Clima para a Restaura Amazônia SPE, empresa do Grupo Belterra, implantar sistemas agroflorestais em 4 mil hectares de áreas degradadas. O investimento total informado é de R$ 302 milhões.
Crédito cobre 82,8% do investimento
A operação tem prazo previsto de 15 anos, com cinco anos de carência. A diferença de R$ 52 milhões entre o custo total e o financiamento não foi detalhada no comunicado. Também não foram publicados o contrato integral, o cronograma de desembolsos nem a lista dos imóveis participantes.
Projeto combina cacau e espécies nativas
O projeto será concentrado nas regiões da Transamazônica e de Carajás, no Pará, e em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso. O plano combina cacau com 25 espécies, entre elas açaí, castanheira, andiroba, ingá, ipê, jatobá e paricá, além de banana e mandioca.
A infraestrutura prevista inclui ampliação de viveiros, irrigação em áreas específicas, máquinas, equipamentos agrícolas e estruturas para fermentação e secagem do cacau. A empresa estima plantar cerca de 4,72 milhões de mudas e concluir a implantação até 2031.
Parceria rural ainda depende dos contratos
O modelo contratual com proprietários poderá adotar arrendamento ou parceria rural. Segundo o BNDES, a Belterra custeará mudas, insumos, assistência técnica e mão de obra; na parceria, o produtor receberá remuneração fixa nos três primeiros anos e, após a entrada em produção, parcela da colheita. As minutas desses contratos não foram divulgadas.
Comprador de cacau não foi identificado
A expectativa é superar 12 mil toneladas de cacau por ano. O banco também informou a existência de um acordo comercial de 15 anos com uma empresa global do setor, mas não identificou o comprador nem divulgou volume, preço ou garantias. Por isso, a previsibilidade de receita anunciada não pode ser tratada como venda integral já assegurada em todas as condições.
O financiamento aprovado representa aproximadamente 82,8% do investimento total. Essa proporção mostra o peso do crédito público de longo prazo na estrutura do projeto, mas aprovação não equivale a desembolso imediato: liberações normalmente acompanham condições contratuais, marcos de execução e comprovação das despesas.
Meta de carbono exige medição e verificação
A estimativa ambiental apresentada é remover 337 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente até 2031. O comunicado alterna essa projeção acumulada com referência a remoção anual; sem metodologia, linha de base e relatório técnico publicados, a leitura prudente é tratá-la como meta sujeita a medição e verificação, e não como crédito de carbono já emitido.
A empresa pretende certificar créditos associados às áreas recuperadas. Essa receita dependerá da titularidade dos benefícios ambientais, da adicionalidade, da permanência, do monitoramento, de auditoria independente e das condições do mercado. O financiamento não garante, por si só, a certificação ou a venda futura desses créditos.
Nova operação não repete o contrato de 2025
Esta é a segunda operação do Fundo Clima com o grupo. Em 2025, o BNDES contratou R$ 100 milhões para 2.750 hectares em quatro estados. A nova aprovação é um marco autônomo: envolve outra SPE, mais 4 mil hectares e um orçamento próprio, sem que a data anterior tenha sido renovada.
O que acompanhar agora
Os próximos pontos verificáveis são a contratação definitiva, os primeiros desembolsos, a identificação das áreas, a implantação dos viveiros e da irrigação, os contratos com produtores, a divulgação da metodologia climática e os relatórios de execução até 2031.
BNDES — aprovação, estrutura financeira, áreas, infraestrutura e metas do projeto →
CNN Brasil — confirmação independente dos parâmetros anunciados em 19/10 →
