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China, Estados Unidos e Brasil: quem controla a infraestrutura do futuro?

A força da posição brasileira dependerá menos da identidade do parceiro e mais da capacidade do próprio Brasil.

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Ilustração editorial do Brasil conectado a corredores de infraestrutura e tecnologia na América do Norte e na Ásia
Ilustração editorial do Brasil conectado a corredores de infraestrutura e tecnologia na América do Norte e na Ásia. Ilustração editorial produzida para o LAWINFRA com auxílio de inteligência artificial.

Durante boa parte do século XX, a posição dos Estados Unidos no sistema internacional parecia tão dominante que discutir uma eventual mudança no centro de gravidade da economia mundial poderia parecer um exercício de especulação. Porém, essa percepção começou a mudar com a ascensão econômica da China.

A China deixou de ser apenas uma grande plataforma industrial de baixo custo e passou a ocupar posições centrais em setores como manufatura avançada, infraestrutura, energia, veículos elétricos, baterias, telecomunicações e tecnologias digitais. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam exercendo enorme influência econômica, financeira, tecnológica, militar e cultural.

O resultado não é, portanto, uma simples substituição de uma potência por outra.

O que surgiu foi uma disputa entre dois centros de poder com capacidades diferentes e complementares, enquanto outros atores - União Europeia, Índia, Japão, Coreia do Sul, Rússia e potências regionais - também procuram preservar ou ampliar seus espaços.

Nesse novo cenário, o Brasil ocupa uma posição peculiar.

É grande produtor de alimentos, energia e minerais; possui uma das maiores matrizes elétricas renováveis do mundo; dispõe de território, biodiversidade e mercado consumidor; e mantém relações econômicas relevantes tanto com os Estados Unidos quanto com a China.

A pergunta, portanto, talvez precise ser reformulada. Não se trata apenas de perguntar “China ou Estados Unidos?”

A questão mais importante é saber como o Brasil poderá utilizar sua posição econômica e geopolítica para ampliar sua capacidade de decisão num mundo em que a competição entre as grandes potências tende a permanecer por muitos anos.

A China já ocupa uma posição central na economia brasileira

Gráfico de barras: exportações brasileiras para China 77,07 bilhões de dólares e Estados Unidos 24,10 bilhões de dólares, janeiro a agosto de 2026.
Exportações do Brasil, janeiro a agosto de 2026. Valores em US$ bilhões. Fonte: MDIC/Secex, dados consolidados.

Os números do comércio exterior mostram que a relação com a China deixou de ser uma questão de futuro. Entre janeiro e agosto de 2026, a China foi destino de 30,72% das exportações brasileiras, no valor de US$ 77,07 bilhões. No mesmo período, os Estados Unidos receberam 9,61% das exportações brasileiras, equivalentes a US$ 24,10 bilhões.

Nas importações, a China respondeu por aproximadamente 26,4% das compras brasileiras no exterior, enquanto os Estados Unidos representaram cerca de 14%.

A diferença não é apenas estatística. Ela revela estruturas econômicas distintas.

No acumulado até agosto, o Brasil registrou superávit comercial de US$ 25,51 bilhões com a China. Com os Estados Unidos, no mesmo período, registrou déficit de US$ 3,21 bilhões.

Esses números, naturalmente, não significam que a China tenha substituído os Estados Unidos em todas as dimensões da economia brasileira. O comércio exterior é apenas uma das dimensões da relação entre países.

Mas ele mostra uma realidade que não pode ser ignorada: a economia brasileira está profundamente integrada à economia chinesa. E essa integração é particularmente evidente nas commodities.

Em 2024, segundo dados divulgados em 2025 pelo governo brasileiro com base em informações da ApexBrasil, a China respondeu por 28% do valor total das exportações brasileiras e por 41,4% do superávit comercial do país. Soja, petróleo bruto e minério de ferro representaram, conjuntamente, 75,6% das exportações brasileiras destinadas ao mercado chinês.

Há aqui uma oportunidade e, ao mesmo tempo, uma vulnerabilidade. A oportunidade está no tamanho do mercado chinês. A vulnerabilidade está na concentração.

Quanto maior a dependência de determinado mercado para a venda de produtos essenciais, maior a exposição às mudanças de demanda, preços, políticas comerciais e ciclos econômicos daquele parceiro.

Por isso, a questão brasileira não deveria ser simplesmente manter ou reduzir o comércio com a China. O debate mais importante é saber o que o Brasil vende, o que compra e quanto valor agregado permanece dentro do país.

A relação com a China começa a ultrapassar o comércio de commodities

Outro fenômeno merece atenção: a presença chinesa no Brasil não está limitada à compra de soja, petróleo, minério de ferro e carnes.

Empresas chinesas participam ou demonstram interesse em setores como infraestrutura, energia, logística, portos, tecnologia e indústria.

Em agosto de 2026, por exemplo, uma missão do Ministério de Portos e Aeroportos à China apresentou a investidores chineses projetos brasileiros de infraestrutura portuária, aeroportuária e hidroviária. Entre as empresas visitadas estavam grupos dos setores de construção, engenharia, operação portuária e logística.

Esse movimento não é meramente simbólico.

Em 2025, segundo informação divulgada pelo Ministério de Portos e Aeroportos com base em dados do Conselho Empresarial Brasil-China, os investimentos chineses no Brasil alcançaram US$ 6,1 bilhões, crescimento de 45% em relação ao ano anterior.

Também merece destaque o fundo de investimentos estruturado pelo BNDES e pelo Export-Import Bank of China, com tamanho-alvo de até US$ 1 bilhão. A estrutura prevê aportes de US$ 600 milhões do banco chinês e cerca de US$ 400 milhões do BNDES, destinados a projetos relacionados a transição energética, infraestrutura, bioeconomia, mineração, agricultura, economia digital e inteligência artificial.

Isso muda a natureza da discussão.

Quando um país compra produtos de outro, existe uma relação comercial. Quando também financia infraestrutura, participa de cadeias produtivas, fornece equipamentos e tecnologias e se torna investidor, a relação passa a ter uma dimensão econômica e estratégica muito maior.

Não significa, por si só, que exista uma relação de dependência. Mas significa que as decisões brasileiras sobre infraestrutura e tecnologia podem produzir efeitos durante décadas.

A nova disputa internacional será também uma disputa tecnológica

A competição entre Estados Unidos e China não se limita ao comércio. Ela envolve semicondutores, inteligência artificial, computação, telecomunicações, veículos elétricos, baterias, energia, minerais críticos, sistemas digitais e cadeias produtivas.

A inteligência artificial talvez seja o exemplo mais claro. Os dados do AI Index 2026, da Universidade Stanford, mostram uma situação mais complexa do que a ideia de que um único país domina a tecnologia.

Os Estados Unidos continuam à frente em investimento privado em inteligência artificial. Em 2025, o investimento privado americano em IA chegou a US$ 285,9 bilhões, contra US$ 12,4 bilhões na China - uma diferença superior a 23 vezes. Entretanto, o próprio relatório ressalta que esse indicador provavelmente subestima o esforço chinês, pois os fundos públicos de orientação estratégica desempenham papel importante no financiamento da IA chinesa.

Ao mesmo tempo, a China apresenta vantagens significativas na produção científica e tecnológica. Segundo o mesmo AI Index, a China lidera em volume de publicações científicas, citações e concessões de patentes relacionadas à inteligência artificial, enquanto os Estados Unidos mantêm liderança na produção de modelos considerados de maior relevância e em patentes de maior impacto. Em 2025, os Estados Unidos produziram 59 modelos considerados notáveis, contra 35 da China.

Portanto, a realidade é mais complexa do que uma simples disputa entre “quem está na frente”.

Os Estados Unidos possuem enorme capacidade de investimento privado, universidades, empresas tecnológicas e ecossistema de inovação. A China possui escala industrial, forte capacidade estatal de coordenação, grande base manufatureira e crescente capacidade científica e tecnológica.

O resultado é uma competição que provavelmente continuará produzindo avanços rápidos dos dois lados.

Baterias: um exemplo de como tecnologia e geopolítica se misturam

O setor de baterias demonstra por que essa disputa interessa diretamente ao Brasil.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), cerca de 85% da capacidade mundial de fabricação de células de baterias estava localizada na China em 2024, e mais de 75% dessa capacidade era de produtores chineses. A China também possui uma posição muito forte na produção de componentes: cerca de 85% dos materiais ativos de cátodo e mais de 90% dos materiais ativos de ânodo eram produzidos no país.

Isso possui implicações que vão muito além da indústria automobilística. Baterias são essenciais para veículos elétricos, armazenamento de energia e integração de fontes renováveis aos sistemas elétricos.

Assim, uma transformação tecnológica pode modificar simultaneamente o mercado automobilístico, o setor energético, a mineração e as relações internacionais.

O Brasil possui reservas e produção de diversos minerais relevantes para essas cadeias. Mas possuir o minério não significa controlar a tecnologia.

Essa talvez seja uma das questões estruturais mais importantes para o país.

Qual é o valor econômico de possuir uma matéria-prima se a maior parte do conhecimento, da tecnologia, do processamento e da fabricação do produto final está localizada em outro país?

A resposta ajuda a compreender um dos principais desafios brasileiros.

Os Estados Unidos continuam sendo uma potência econômica e tecnológica decisiva

O crescimento chinês não elimina a importância dos Estados Unidos.

Em 2025, o PIB nominal americano foi de aproximadamente US$ 30,77 trilhões, contra US$ 19,50 trilhões da China, segundo os dados do Banco Mundial.

Além da dimensão econômica, os Estados Unidos continuam possuindo uma posição particularmente forte nos mercados financeiros, nas universidades, nas empresas de tecnologia e em áreas avançadas de pesquisa.

Na inteligência artificial, por exemplo, o investimento privado americano permanece muito superior ao chinês.

Portanto, seria inadequado interpretar a ascensão chinesa como uma substituição automática dos Estados Unidos.

As duas economias possuem características diferentes.

A China apresenta extraordinária capacidade industrial e uma posição central em numerosas cadeias globais de produção. Os Estados Unidos apresentam enorme capacidade financeira, tecnológica e empresarial e continuam ocupando posição central no sistema internacional.

A questão, portanto, não é descobrir qual deles simplesmente “substituirá” o outro.

É possível que o sistema internacional caminhe para uma configuração em que diferentes centros de poder sejam dominantes em diferentes áreas.

A América Latina também entrou no cálculo estratégico

É nesse ponto que a América Latina ganha importância. A região possui recursos naturais, alimentos, energia, minerais estratégicos e mercados consumidores. Ao mesmo tempo, está geograficamente próxima dos Estados Unidos e economicamente cada vez mais conectada à China.

Análises de instituições americanas como o Center for Strategic and International Studies (CSIS) vêm tratando a presença chinesa em infraestrutura latino-americana como parte de uma competição estratégica mais ampla, especialmente em portos e cadeias de suprimentos. O próprio debate americano passou a tratar infraestrutura e conectividade como componentes de segurança econômica e estratégica.

Isso não significa que todas as iniciativas americanas na América Latina tenham como único objetivo conter a China, nem que todos os investimentos chineses tenham necessariamente uma finalidade geopolítica.

As relações internacionais são mais complexas, pois comércio, investimentos, segurança, tecnologia, energia, diplomacia e interesses empresariais se sobrepõem.

Mas há uma mudança importante: a América Latina deixou de ser apenas uma região periférica na disputa entre grandes potências e passou a possuir ativos que são relevantes para a economia do século XXI.

E, dentro da América Latina, o Brasil ocupa uma posição singular.

O Brasil possui algo que os dois grandes polos desejam: reúne características pouco comuns; é um dos grandes produtores mundiais de alimentos; possui reservas minerais importantes; é produtor relevante de petróleo e gás; possui enorme potencial de geração de energia renovável; tem biodiversidade e recursos naturais estratégicos; possui uma população numerosa e um grande mercado consumidor, e está situado em uma região que, apesar de seus problemas, apresenta condições geográficas e econômicas relevantes para a produção de alimentos, energia e matérias-primas.

Isso significa que o Brasil possui ativos que interessam a diferentes centros de poder.

A China tem interesse em alimentos, energia, matérias-primas, mercados e oportunidades de investimento.

Os Estados Unidos possuem interesse econômico e estratégico na manutenção de cadeias produtivas e relações comerciais no hemisfério.

A União Europeia busca parceiros em segurança energética, alimentos, transição climática e cadeias industriais.

A Índia amplia sua demanda por alimentos, energia e matérias-primas.

O Brasil, portanto, não precisa necessariamente enxergar o mundo como uma escolha binária.

Existe uma terceira possibilidade: utilizar a multiplicidade de parceiros para ampliar o espaço de negociação brasileiro.

O problema da dependência não desaparece simplesmente porque muda o parceiro. Esse talvez seja o ponto central desta análise.

Se o Brasil substituir uma dependência por outra, a sua autonomia não terá necessariamente aumentado.

A dependência pode assumir diversas formas. Pode ser financeira, comercial, tecnológica, energética, industrial, logística e pode estar relacionada a dados e infraestrutura digital.

Por isso, uma política de diversificação internacional não deveria significar apenas vender para mais países. Deveria significar também desenvolver capacidade própria.

Não basta exportar minério, é necessário ampliar a capacidade de processamento. Não basta produzir alimentos, é necessário avançar em tecnologia agrícola, alimentos processados e biotecnologia. Não basta produzir energia, é necessário aproveitar a disponibilidade energética para desenvolver indústria competitiva. Não basta possuir dados, é necessário desenvolver capacidade de transformá-los em conhecimento, serviços e inovação. Não basta importar inteligência artificial, é necessário desenvolver pesquisadores, empresas e aplicações nacionais capazes de utilizar e, quando possível, produzir essa tecnologia.

Esse é um problema de desenvolvimento econômico, e não apenas de política externa. Assim, a escolha tecnológica pode ser mais importante que a escolha diplomática

Existe ainda uma questão que poderá ganhar importância nos próximos anos.

À medida que a competição entre Estados Unidos e China se intensifica, determinadas tecnologias poderão ser consideradas estratégicas pelos governos.

Semicondutores, telecomunicações, computação avançada, inteligência artificial, sistemas de defesa, satélites e infraestrutura digital podem deixar de ser vistos exclusivamente como produtos comerciais.

Isso significa que uma decisão brasileira tomada hoje poderá criar dependências tecnológicas de longo prazo.

Antes de contratar uma determinada tecnologia, por exemplo, o Brasil poderá precisar responder a perguntas que vão além do preço:

Quadro de análise de contratação tecnológica: controle, dados, transferência de conhecimento e alternativas de fornecimento.
Síntese visual editorial das perguntas formuladas pelo autor para grandes projetos de infraestrutura.

Quem controla a tecnologia?

Quem produz os componentes?

Onde estão os servidores e os dados?

Existe transferência de conhecimento?

Existe possibilidade de manutenção por empresas brasileiras?

Há fornecedores alternativos?

O país poderá substituir a tecnologia no futuro?

Existe risco de interrupção do fornecimento?

Essas questões deveriam fazer parte da análise de grandes projetos de infraestrutura, telecomunicações, energia, defesa e tecnologia.

O preço inicial de um equipamento pode ser apenas uma pequena parte do seu verdadeiro custo estratégico.

E se a China se tornar a maior economia do mundo?

Essa possibilidade é frequentemente apresentada como se implicasse automaticamente uma substituição da ordem internacional americana. Mas, essa conclusão não é necessariamente válida.

O poder internacional possui várias dimensões. PIB é uma delas. Tecnologia é outra. Poder financeiro é outra. Capacidade militar, diplomática, científica e cultural também importam.

Uma potência pode ser dominante em comércio e manufatura e não exercer liderança equivalente em todas as outras áreas. Da mesma forma, uma potência pode conservar enorme influência tecnológica e financeira mesmo diante da ascensão de um concorrente econômico.

O cenário futuro pode, portanto, ser menos parecido com uma sucessão de impérios e mais com uma distribuição de poder entre diferentes centros.

Nesse cenário, países de médio e grande porte terão maior espaço para negociar - desde que possuam capacidade econômica, tecnológica e diplomática para fazê-lo.

O verdadeiro desafio brasileiro

É nesse ponto que a discussão retorna ao Brasil.

A questão não deveria ser simplesmente escolher entre Washington e Pequim. O Brasil precisa definir quais capacidades considera essenciais para sua autonomia econômica.

Precisa aumentar a produtividade; melhorar a infraestrutura, ampliar a formação científica e tecnológica; aumentar o valor agregado das exportações; diversificar mercados; desenvolver empresas nacionais competitivas; atrair capital estrangeiro sem abrir mão de critérios de interesse nacional, e utilizar a competição entre diferentes investidores e fornecedores para obter melhores condições para o desenvolvimento brasileiro.

Essa estratégia não significa afastamento dos Estados Unidos. Tampouco significa alinhamento automático à China. Significa reconhecer que relações internacionais são instrumentos de desenvolvimento nacional, e não fins em si mesmas.

O Brasil pode negociar com a China e, simultaneamente, aprofundar relações com os Estados Unidos. Pode buscar investimentos europeus e asiáticos. Pode ampliar relações com a Índia. Pode fortalecer a integração sul-americana. Pode participar de instituições multilaterais. E pode desenvolver capacidade própria em setores considerados estratégicos.

Não há contradição necessária entre essas iniciativas.

Que capacidade o Brasil precisa construir para poder negociar com China, Estados Unidos e os demais centros de poder em condições cada vez mais favoráveis?

Se os Estados Unidos continuarem exercendo enorme influência no sistema internacional, será necessário manter uma relação econômica, tecnológica e diplomática consistente com Washington.

Se a China ampliar ainda mais sua importância econômica e tecnológica, será necessário aprofundar a capacidade brasileira de negociar com Pequim.

Se o mundo caminhar para uma estrutura mais multipolar, o Brasil terá de desenvolver relações simultâneas com diversos centros de poder.

Em todos esses cenários, uma variável permanece constante: a força da posição brasileira dependerá menos da identidade do parceiro e mais da capacidade do próprio Brasil.

O país que possui apenas matérias-primas negocia de uma maneira. O país que possui tecnologia, capital, empresas competitivas, infraestrutura eficiente, conhecimento científico e mercado relevante negocia de outra.

Essa diferença pode determinar a posição brasileira nas próximas décadas.

Por isso, a discussão sobre China e Estados Unidos talvez esconda uma questão ainda mais profunda: o Brasil será apenas fornecedor de recursos e consumidor de tecnologias desenvolvidas por outros países ou conseguirá ocupar posições mais relevantes nas cadeias de valor do século XXI?

Essa é uma decisão que não depende exclusivamente de Washington ou de Pequim. Depende, sobretudo, das escolhas brasileiras.

A disputa entre Estados Unidos e China pode representar riscos. Pode produzir pressões, restrições tecnológicas e conflitos comerciais. Mas também pode abrir oportunidades.

Quanto maior a competição entre grandes potências por mercados, recursos, investimentos e influência, maior pode ser o espaço de negociação de países que possuem ativos estratégicos - desde que esses países saibam utilizá-los.

O desafio brasileiro, portanto, não deveria ser descobrir antecipadamente quem será o vencedor da disputa entre China e Estados Unidos. Até porque o futuro pode não produzir um vencedor único.

O desafio é construir um Brasil capaz de negociar com qualquer um deles. Mais do que escolher entre China e Estados Unidos, a questão estratégica é saber se o Brasil terá capacidade econômica, tecnológica e diplomática para escolher por si mesmo.

Essa talvez seja a verdadeira dimensão da autonomia nacional no século XXI.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor.