Concessão em Durban leva Transnet ao lucro, mas ferrovia ainda fica abaixo da meta

Estatal sul-africana lucrou 4,6 bilhões de rands após concessão de terminal por 25 anos; carga ferroviária subiu a 167,9 milhões de toneladas, ainda abaixo da meta de 180 milhões.
A estatal sul-africana de logística Transnet registrou lucro líquido de 4,6 bilhões de rands, aproximadamente US$ 286 milhões, no exercício encerrado em março de 2026. Foi o primeiro resultado anual positivo em quatro anos, depois de prejuízo de 1,9 bilhão de rands no período anterior.
A virada, porém, dependeu de um ganho extraordinário. A concessão por 25 anos e a venda de uma participação no principal terminal de contêineres de Durban à International Container Terminal Services, a ICTSI, produziram lucro de 12,5 bilhões de rands. Sem essa operação, a companhia teria permanecido no prejuízo.
A distinção é decisiva para avaliar a recuperação. Alienar uma participação e contratar um operador privado melhora o resultado no momento da transação, mas a sustentabilidade futura dependerá da receita recorrente, da produtividade dos ativos e do controle da dívida.
A receita total cresceu 7,1%, para 88,6 bilhões de rands, apoiada pelo aumento dos volumes movimentados nas redes ferroviária e de dutos. A ferrovia de cargas transportou 167,9 milhões de toneladas, ante 160,1 milhões no ano anterior.
O avanço de 7,8 milhões de toneladas mostra melhora operacional, mas ficou abaixo da meta de 180 milhões. A presidente-executiva Michelle Phillips afirmou que alcançar esse patamar é condição para o negócio subjacente atingir o equilíbrio financeiro.
A África do Sul abriu a malha a terceiros para elevar a utilização dos corredores. Onze operadores privados receberam acesso e parte deles deverá começar a operar em 2027. A capacidade adicional estimada é de 24 milhões de toneladas no primeiro estágio e pode chegar a 52 milhões.
A entrada de terceiros não elimina a função da Transnet como gestora da rede. Capacidade de circulação, regras de acesso, disponibilidade de locomotivas e vagões, manutenção, terminais e coordenação com portos precisam avançar em conjunto para converter direitos de passagem em carga efetivamente transportada.
O passivo financeiro permanece elevado. Os empréstimos aumentaram de 144,8 bilhões para aproximadamente 150,7 bilhões de rands. O índice de endividamento em relação ao patrimônio recuou marginalmente, de 49,6% para 49,4%, favorecido pelo lucro contábil.
A companhia planeja investir 129,1 bilhões de rands nos próximos cinco anos. Desse total, 115,9 bilhões serão destinados à manutenção e à recuperação de infraestrutura existente. A predominância da reabilitação mostra que o desafio imediato é recompor confiabilidade e capacidade antes de uma expansão ampla da rede.
O programa conta com garantias do governo sul-africano. Elas reduzem o risco de liquidez e facilitam o financiamento, mas mantêm exposição fiscal caso a melhoria operacional não gere caixa suficiente para atender a dívida e executar os investimentos.
Para o Brasil, o caso oferece referência para concessões portuárias, compartilhamento ferroviário e separação entre recuperação contábil e desempenho estrutural. Uma transação pode destravar capital e gestão, mas indicadores de volume, produtividade, manutenção e dívida precisam confirmar a mudança ao longo dos anos.
Os próximos marcos são a entrada dos operadores privados em 2027, a evolução até a meta de 180 milhões de toneladas, a execução do plano de investimentos e o desempenho do terminal concedido em Durban. Sem esses resultados, o primeiro lucro em quatro anos será um marco financeiro importante, porém ainda insuficiente para demonstrar a recuperação permanente da logística sul-africana.
