AIE projeta queda de 5,7 milhões de bpd na oferta e adia normalização para 2027

Agência estima oferta mundial 5,7 milhões de barris por dia menor em 2026, demanda 2,5 milhões inferior e recomposição dos fluxos do Golfo apenas no próximo ano.
A Agência Internacional de Energia, a AIE, aprofundou nesta sexta-feira, 11 de setembro, sua estimativa para o choque do mercado de petróleo em 2026. A oferta mundial deverá ficar 5,7 milhões de barris por dia abaixo do nível de 2025, queda equivalente a aproximadamente 6%. No relatório anterior, a agência projetava redução de cerca de 4%.
A produção global é estimada em 100,7 milhões de barris por dia no conjunto de 2026. A demanda também recua, mas em menor intensidade: queda de 2,5 milhões de barris por dia, para 102,4 milhões. A diferença entre os totais anuais sinaliza pressão sobre estoques e fluxos comerciais, embora não deva ser lida como falta física idêntica em todos os dias ou mercados.
Segundo a AIE, a produção caiu 1,6 milhão de barris por dia em agosto, para 100,1 milhões, enquanto os estoques foram consumidos ao ritmo de 3,1 milhões de barris por dia. O primeiro número mede mudança no fluxo de produção; o segundo representa a retirada média de reservas comerciais e estratégicas durante o mês.
A normalização das exportações pelo Golfo foi deslocada para 2027. No próximo ano, a agência projeta recuperação de 8 milhões de barris por dia na oferta e aumento de 2,6 milhões na demanda. O cenário depende da duração do conflito, da segurança da navegação, da capacidade de reparar instalações e do retorno de produtores e transportadores.
Os preços devolveram parte da alta nesta sexta-feira depois de o Brent se aproximar de US$ 110, mas permaneceram acima de US$ 100. A oscilação diária não altera o núcleo do relatório: restrição de oferta, consumo de estoques e risco simultâneo em Hormuz e no Bab el-Mandeb prolongam a incerteza sobre fretes, seguros e abastecimento.
Forças houthis tomaram o porto de Mocha, no Iêmen, e avançaram sobre as ilhas Hanish nesta quinta-feira, 10 de setembro. O movimento aproxima o conflito do Estreito de Bab el-Mandeb, passagem que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ganhou importância para o escoamento saudita depois da redução do tráfego pelo Estreito de Hormuz.
Quatro fontes militares do governo iemenita confirmaram à Reuters a perda de Mocha, e duas fontes governamentais relataram a chegada dos houthis às ilhas. A Associated Press ouviu moradores e médicos que confirmaram a entrada do grupo na cidade portuária. O comandante das forças governistas da costa oeste informou ter realizado uma retirada estratégica para o sul.
A tomada de Mocha e a presença nas ilhas ampliam a capacidade de pressionar a navegação, mas não demonstram que os houthis controlem o Bab el-Mandeb. O domínio efetivo da passagem dependeria também de posições como Dhubab e a ilha de Perim, além da capacidade de sustentar operações contra navios e resistir à resposta aérea saudita.
O petróleo Brent encerrou a sessão a US$ 107,63 por barril, alta de 6,34% e maior fechamento desde maio. O West Texas Intermediate, referência norte-americana, terminou a US$ 102,48, avanço de 6,51%. Os valores substituem as cotações intradiárias acompanhadas durante a quinta-feira e confirmam o primeiro fechamento simultâneo dos dois contratos acima de US$ 100 nesta escalada.
O avanço no Iêmen cria um segundo foco de risco para a logística energética. A Arábia Saudita passou a depender mais de terminais no Mar Vermelho para contornar Hormuz; uma ameaça simultânea às duas passagens pode elevar fretes, prêmios de seguro, tempo de viagem e o custo de manter embarcações disponíveis.
O fluxo de petróleo pelo Estreito de Hormuz continua muito abaixo do nível anterior à guerra. A passagem respondia por aproximadamente um quinto do suprimento mundial de petróleo e gás antes do conflito; a redução do trânsito expõe carregamentos, seguros, terminais e cadeias de abastecimento a restrições persistentes.
O Brent acumula alta próxima de 30% desde as mínimas de agosto. O movimento não decorre apenas dos navios atingidos: incorpora o risco de interrupções adicionais, menor disponibilidade física de cargas e expectativa de que o conflito dure mais do que o mercado projetava semanas atrás.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP, reduziu para aproximadamente 380 mil barris por dia sua projeção de crescimento da demanda mundial em 2026. Foi a quinta revisão negativa consecutiva do indicador. A nova estimativa é uma previsão de consumo, não uma medição de barris efetivamente retirados do mercado, e mostra que o choque de oferta e logística pode sustentar preços elevados mesmo com expansão mais fraca da demanda.
A OPEP ainda projeta crescimento do consumo em 2026, enquanto a Agência Internacional de Energia estima contração no ano. A divergência entre os dois cenários reforça a incerteza do balanço global. Para 2027, a organização elevou sua expectativa de crescimento da demanda, mas a realização desse cenário dependerá da atividade econômica, dos preços, da eficiência energética e da duração das restrições de oferta.
A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, conhecida pela sigla EIA, projeta que a produção de petróleo do Oriente Médio permanecerá abaixo da média anterior ao conflito até o segundo trimestre de 2027. O novo cenário oficial, divulgado nesta quarta-feira (9), prolonga o horizonte de restrição da oferta enquanto ataques a navios ampliam o risco operacional no Estreito de Hormuz e no Golfo de Omã.
A EIA estima que os estoques globais de petróleo diminuíram aproximadamente 400 milhões de barris desde o início de 2026 e continuarão caindo até o fim do ano. A agência elevou para US$ 91 por barril a previsão do preço médio do Brent em 2026, com média próxima de US$ 90 no segundo semestre, e projeta recuo para US$ 74 em 2027 à medida que produção e estoques se recuperem.
O cenário pressupõe aumento gradual dos fluxos por Hormuz e maior utilização de rotas alternativas, mas mantém restrições relevantes às exportações da região até dezembro. A projeção não constitui garantia de normalização: depende da segurança da navegação, da disponibilidade de terminais e oleodutos, da capacidade de redirecionar cargas e da evolução do conflito.
Há um limite temporal importante. A EIA concluiu em 3 de setembro os dados e premissas utilizados no modelo. Portanto, o relatório divulgado em 9 de setembro não incorpora especificamente os ataques realizados cinco dias depois do fechamento das projeções. Esses episódios podem alterar preços, seguros, produção e cronogramas em relação ao cenário-base.
Forças dos Estados Unidos atacaram cinco petroleiros iranianos em 8 de setembro, segundo comunicado do Comando Central norte-americano, o CENTCOM. A ofensiva contra ativos da cadeia de exportação foi seguida por relatos de outros navios atingidos e levou o Brent a superar brevemente US$ 100 por barril nesta quarta-feira.
O CENTCOM identificou os petroleiros Kaviz, Charminar, Horizon 1 e Riesco no Golfo de Omã e o Derya nas proximidades da ilha de Kharg. O comando afirmou que as tripulações receberam instruções para abandonar as embarcações antes dos ataques e que os cinco navios foram deixados inoperantes.
A extensão definitiva dos danos ainda não foi verificada por inspeção técnica independente. Imagens divulgadas pelo comando e examinadas pela Reuters mostram embarcações em chamas e ao menos um navio afundando, mas não substituem laudos sobre casco, carga, poluição, possibilidade de salvamento ou perda total.
Os Estados Unidos apresentaram a operação como resposta a duas tentativas iranianas de atingir um navio de guerra norte-americano com mísseis balísticos durante os dois dias anteriores. O CENTCOM declarou que a embarcação militar evitou os ataques e que nenhum integrante das forças norte-americanas ficou ferido. Essas informações partem de uma das partes do conflito.
A Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter respondido contra dez navios: duas embarcações norte-americanas e oito petroleiros que tentariam cruzar uma área declarada proibida e insegura no Estreito de Hormuz. A relação completa dos alvos, os acertos e os danos alegados pelo Irã não haviam sido confirmados de forma independente.
A United Kingdom Maritime Trade Operations, autoridade britânica de segurança marítima conhecida como UKMTO, confirmou que várias embarcações mercantes sofreram fogo incapacitante durante atividade militar no norte do Golfo e no Golfo de Omã. O órgão não confirmou vítimas nem impacto ambiental.
A UKMTO registrou separadamente uma embarcação adernando enquanto estava fundeada a 24 milhas náuticas do porto de Rashid, nos Emirados Árabes Unidos. O quadro poderia indicar entrada de água depois do impacto de um projétil de origem ainda desconhecida. Não havia confirmação pública de identidade, carga ou condição final do navio.
A sequência representa a maior onda declarada de ataques recíprocos à navegação desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã. O fato material confirmado é que cinco petroleiros foram atingidos pelos norte-americanos e que a UKMTO recebeu relatos corroborados de fogo incapacitante em navios mercantes; as reivindicações sobre todos os dez alvos iranianos permanecem sob verificação.
O Brent chegou a US$ 100,19 e ultrapassou a barreira de US$ 100 pela primeira vez desde 24 de julho. Às 8h02 no horário de Greenwich, o contrato operava a US$ 99,93, alta de 2,05%. A cotação acumulava avanço de aproximadamente 25% desde o início de agosto, movimento associado à redução dos fluxos e ao aumento do risco sobre navios e instalações.
Estimativa da consultoria Rystad Energy citada pela Reuters indica que entre 8 milhões e 9 milhões de barris por dia atravessavam Hormuz na semana anterior à retomada dos confrontos, mas o volume teria caído para menos de 2 milhões de barris por dia. Trata-se de estimativa de mercado, não de balanço oficial consolidado. Dados preliminares também apontavam apenas seis travessias com transponders ligados nas 24 horas anteriores.
O risco operacional vai além da perda dos navios atingidos. Menor circulação pode reduzir transferências entre embarcações no Golfo de Omã, restringir o acesso a ancoradouros, elevar prêmios de seguro e tornar armadores mais seletivos. Uma eventual poluição dependerá da quantidade de óleo a bordo, do local dos impactos e da capacidade de resposta, dados que ainda não foram divulgados.
Para o Brasil, o choque possui efeitos opostos. Produtores e exportadores podem obter maior receita por barril, enquanto refinarias, importadores, distribuidores, transportadores e consumidores ficam expostos a custos maiores. O resultado depende também do câmbio, das margens de refino, dos contratos de suprimento e da política comercial das empresas.
Gasolina, diesel e querosene de aviação não acompanham automaticamente o Brent na mesma intensidade ou no mesmo dia. Tributos, mistura de biocombustíveis, estoques, logística e concorrência influenciam o preço final. Uma alta prolongada, porém, tende a alcançar fretes, passagens, alimentos e bens industriais, com possível efeito sobre inflação, juros e medidas de compensação.
Os próximos marcos são a identificação independente dos navios atingidos pelo Irã, os informes da UKMTO, a avaliação de vítimas e poluição, as operações de salvamento, o fluxo efetivo pelos dois estreitos e a revisão do cenário da EIA em 6 de outubro. Sem esses dados, não é possível transformar todas as reivindicações militares em perdas confirmadas nem calcular quanto petróleo adicional foi retirado do mercado depois do fechamento das projeções.
