Defasagem do frete rodoviário de cargas chega a 10,5%, aponta levantamento

Entidade aponta distância entre preços praticados e custos das transportadoras; indicador setorial não equivale a revisão oficial dos pisos mínimos definidos pela ANTT.
A Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística, a NTC&Logística, estima em 10,5% a defasagem média entre os valores de frete praticados pelo mercado e os custos efetivos das empresas de transporte rodoviário de cargas.
O resultado foi apresentado a partir de levantamento do Departamento de Custos Operacionais e Estudos Técnicos e Econômicos da entidade, o DECOPE. A estimativa expressa a leitura da associação empresarial sobre a remuneração necessária para cobrir a estrutura de custos do setor; não constitui índice oficial do governo nem reajuste obrigatório dos contratos de transporte.
Segundo os dados divulgados, o combustível acumulou alta de 17,63% no primeiro semestre de 2026. A mão de obra ficou 5% mais cara e os veículos pesados registraram elevação de 1,32%. A combinação pressiona operações intensivas em diesel, manutenção, pneus, seguros, tecnologia, segurança e capital de giro.
Em 12 meses, o Índice Nacional de Custos do Transporte de carga lotação, o INCT-Lotação, avançou 8,36%. No transporte fracionado, o INCT-Fracionado subiu 8,19%. No mesmo intervalo, o IPCA acumulou 4,64%, de acordo com a comparação apresentada pela entidade.
A diferença entre os indicadores decorre da composição de cada cesta. O IPCA mede a inflação enfrentada pelas famílias. O INCT procura acompanhar insumos específicos do transporte de cargas, cuja evolução pode ser mais intensa do que a média dos preços ao consumidor.
Também é necessário distinguir custo operacional de preço de mercado. O custo reúne os recursos necessários à prestação do serviço. O preço do frete resulta da negociação entre transportador e contratante e pode ser afetado pela concorrência, pela disponibilidade de caminhões, pelo fluxo de retorno, pelo tipo de carga, pela distância e pelo poder de negociação de cada parte.
A defasagem de 10,5% tampouco se confunde com os pisos mínimos de frete rodoviário. A Política Nacional de Pisos Mínimos, administrada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres, estabelece valores mínimos calculados segundo parâmetros legais e regulatórios. O levantamento da NTC possui metodologia e finalidade próprias e não altera automaticamente a tabela da ANTT.
Na avaliação da associação, a recomposição insuficiente dos fretes reduz margens e compromete renovação de frota, manutenção preventiva, segurança e qualidade do serviço. A entidade defende que as negociações considerem componentes como gerenciamento de riscos, cubagem, serviços adicionais e custos financeiros.
Os juros também influenciam o setor. Empresas que financiam caminhões, antecipam recebíveis ou sustentam prazos longos de pagamento suportam custo de capital que não aparece apenas na variação do diesel ou do veículo. Esse efeito tende a ser maior entre transportadoras com menor escala financeira.
A estimativa não demonstra que todos os contratos estejam igualmente defasados. Operações dedicadas, carga fracionada, lotação, produtos perigosos, distribuição urbana e longas distâncias possuem estruturas distintas. Uma leitura contratual adequada depende de planilhas, rotas, volumes, riscos e mecanismos de reajuste de cada relação comercial.
O dado funciona, portanto, como alerta setorial e ponto de partida para renegociações, não como prova automática de desequilíbrio econômico de qualquer contrato. A aplicação concreta exige documentação dos custos, comparação com a fórmula de reajuste pactuada e análise das responsabilidades assumidas pelas partes.
