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Coreia discute antecipar contas de grandes consumidores para financiar a rede

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Complexo de semicondutores conectado a subestação e linhas de transmissão na Coreia do Sul
Ilustração editorial produzida por inteligência artificial; não retrata instalação, empresa ou projeto real específico.

Estatal confirmou tratativas sobre um modelo de pré-pagamento para financiar transmissão e subestações, mas afirmou que adesão, valores, prazo e remuneração ainda não foram definidos.

A Korea Electric Power Corporation, a KEPCO, discute com grandes consumidores de eletricidade um modelo de antecipação de contas para financiar a expansão da rede sul-coreana. A proposta alcança Samsung Electronics e SK Hynix, cujos novos polos de semicondutores exigirão linhas de transmissão, subestações e capacidade elétrica em escala elevada.

Reportagens publicadas nesta quinta-feira (3) indicam uma antecipação conjunta de até 25 trilhões de won: 20 trilhões pela Samsung e 5 trilhões pela SK Hynix. Pela cotação informada pela Reuters, o total corresponde a aproximadamente US$ 18,4 bilhões, ou cerca de R$ 93,5 bilhões pela cotação indicativa de R$ 5,08 por dólar observada em 3 de setembro.

Os números não devem ser tratados como compromisso contratado. A KEPCO confirmou que apresentou e discute um sistema de pré-pagamento com consumidores de grande porte, mas ressalvou que participação das empresas, montantes, duração e remuneração ainda não foram definidos. Também não existe confirmação pública de aceite definitivo por Samsung ou SK Hynix.

O desenho divulgado corresponderia à antecipação aproximada das contas de 2027 a 2031, calculada a partir do consumo recente das duas fabricantes. Em troca, as empresas receberiam remuneração financeira ou descontos periódicos nas faturas. A taxa estaria entre o rendimento dos títulos públicos sul-coreanos e o custo dos títulos emitidos pela própria KEPCO, mas essa condição permanece em negociação.

A operação funcionaria economicamente como financiamento: a concessionária receberia hoje receitas que normalmente ingressariam ao longo de vários anos e as aplicaria na infraestrutura necessária ao atendimento futuro. Para os consumidores, o interesse estaria em reduzir o risco de atraso na conexão de fábricas cuja construção depende de fornecimento firme, contínuo e em grande escala.

A proposta surge em meio ao crescimento simultâneo da demanda dos polos de semicondutores e dos data centers de inteligência artificial. Estimativas divulgadas pela imprensa local apontam 20,6 gigawatts adicionais associados aos clusters industriais e 7,9 gigawatts ligados aos data centers. São projeções de demanda, não capacidade já consumida.

A KEPCO planeja investir 72,8 trilhões de won na rede até 2038, enquanto enfrenta endividamento superior a 210 trilhões de won. O pré-pagamento permitiria levantar recursos sem depender exclusivamente de novas emissões de dívida. Essa vantagem, porém, precisa ser confrontada com o custo financeiro oferecido aos participantes e com o tratamento regulatório das receitas antecipadas.

Há também uma questão de igualdade entre usuários. Quando um grande consumidor antecipa recursos para viabilizar a própria conexão, é necessário definir quais ativos passarão a integrar a rede, quem terá direito de utilizá-los, como serão remunerados e se parte do custo continuará sendo socializada pelas tarifas dos demais consumidores.

A experiência é especialmente relevante para o Brasil. A expansão dos data centers e de outras cargas intensivas já provoca debates sobre prioridade de conexão, garantias financeiras, reforços na transmissão e risco de pedidos especulativos. O modelo sul-coreano oferece uma alternativa de financiamento, mas não elimina a necessidade de planejamento coordenado e regras transparentes de alocação de custos.

No ambiente brasileiro, uma solução semelhante exigiria compatibilidade com a regulação tarifária, os contratos de conexão e uso da rede, o planejamento do sistema e as competências da ANEEL e do Operador Nacional do Sistema Elétrico. Também seria necessário impedir que a capacidade financiada por um grupo criasse discriminação indevida ou vantagem incompatível com o regime de acesso à infraestrutura.

A discussão não representa uma decisão de obrigar Samsung e SK Hynix a pagar antecipadamente nem a conclusão de um acordo. O fato confirmado é que a KEPCO procura mecanismos para financiar a rede exigida por grandes cargas e submeteu o pré-pagamento à avaliação das empresas. Os próximos marcos serão a definição das condições econômicas, o eventual aceite dos consumidores e a aprovação institucional necessária.