Solar supera carvão em capacidade instalada na China, mas térmicas ainda produzem mais energia

Potência fotovoltaica chegou a 1.286 GW no fim de julho, ante 1.285 GW das usinas a carvão; marco expõe a diferença entre capacidade nominal, geração efetiva e segurança do suprimento.
A energia solar tornou-se a maior fonte da China em capacidade elétrica instalada. No fim de julho, o país possuía aproximadamente 1.286 gigawatts de potência fotovoltaica, ligeiramente acima dos 1.285 GW das usinas a carvão, segundo dados da Administração Nacional de Energia divulgados pela Reuters nesta terça-feira (1º).
A ultrapassagem é um marco da transição energética chinesa, mas não significa que a energia solar já produza mais eletricidade do que o carvão. Capacidade instalada mede a potência máxima nominal dos equipamentos; geração mede a quantidade efetivamente entregue ao sistema ao longo do tempo.
Painéis solares produzem apenas quando há radiação suficiente e sua entrega varia conforme horário, clima, localização e eventuais restrições da rede. Usinas a carvão, embora mais emissoras, podem operar por períodos prolongados e ser acionadas para acompanhar a demanda. Por isso, um gigawatt instalado de cada tecnologia não resulta na mesma produção anual.
A diferença aparece nos dados de geração. No primeiro semestre de 2026, o carvão respondeu por 49,7% da eletricidade chinesa, enquanto todas as fontes renováveis somaram 41,2%. Eólica e solar, consideradas em conjunto, produziram 24,6% do total. Pela primeira vez, a participação do carvão ficou abaixo da metade, mas a fonte permaneceu individualmente dominante.
O avanço de capacidade ocorreu em escala excepcional. Ao final de junho, a China reunia cerca de 1,95 terawatt de potência eólica e solar, crescimento de 16,8% em doze meses. O volume supera a capacidade elétrica total instalada da maioria dos sistemas nacionais e amplia a necessidade de coordenar geração, transmissão, armazenamento e consumo.
Esse é o principal desafio da nova etapa. Acrescentar painéis não assegura, sozinho, que toda a energia disponível será absorvida. Quando a produção solar se concentra nas mesmas horas e a rede ou a demanda não acompanham, o operador pode precisar reduzir a geração. Linhas de transmissão, baterias, usinas flexíveis, resposta da demanda e mercados capazes de valorar flexibilidade tornam-se parte do investimento necessário.
A expansão também modifica a economia dos ativos existentes. Usinas térmicas podem produzir menos horas, mas continuar necessárias para atender picos, períodos sem sol e vento ou contingências da rede. O desenho de remuneração precisa distinguir a energia efetivamente gerada da disponibilidade oferecida ao sistema, evitando tanto capacidade ociosa sem justificativa quanto perda de segurança do suprimento.
O ritmo de novas instalações solares desacelerou em 2026 depois de mudanças nas regras de remuneração de projetos renováveis. Ainda assim, o estoque acumulado foi suficiente para alcançar o carvão. A comparação mensal deve ser lida com cautela, porque pequenas revisões estatísticas e novas entradas em operação podem alterar temporariamente a ordem entre as fontes.
A escala chinesa também produz efeitos internacionais. O país concentra parcela relevante da fabricação de painéis, células, inversores e baterias. A expansão doméstica sustenta cadeias industriais, pressiona custos globais e influencia disputas comerciais sobre subsídios, excesso de capacidade e conteúdo local.
Ao mesmo tempo, o crescimento da demanda elétrica chinesa pode manter elevado o uso absoluto do carvão mesmo com redução de sua participação percentual. Data centers, eletrificação industrial, veículos elétricos e climatização adicionam consumo. A transição, portanto, não deve ser medida apenas pela potência renovável instalada, mas também por geração, emissões, confiabilidade e substituição efetiva de combustíveis fósseis.
A ultrapassagem representa uma mudança estrutural no parque elétrico, não a conclusão da descarbonização. O próximo teste será converter a liderança nominal da energia solar em eletricidade utilizável durante mais horas, com menos cortes de geração e menor dependência do carvão para equilibrar o sistema.
