LAWINFRATODAS AS NOTÍCIAS →

BEI libera € 1 bilhão para ilha energética conectar eólicas à rede belga

COMPARTILHE
Ilustração editorial de ilha artificial com subestações e cabos conectada a parques eólicos no Mar do Norte
Ilustração editorial produzida por inteligência artificial para o LAWINFRA; não reproduz a ilha, os equipamentos ou a configuração real do projeto Princess Elisabeth. Crédito: LAWINFRA/IA.

Linha verde financiará subestações, transformadores e seis cabos de 220 kV da segunda fase; primeiro desembolso ocorreu em julho e conexão dos parques é prevista a partir de 2031.

O Banco Europeu de Investimento, conhecido pelas siglas BEI em português e EIB em inglês, concedeu uma linha de crédito verde de € 1 bilhão à operadora de transmissão Elia para a segunda fase da ilha energética Princess Elisabeth, no Mar do Norte. O contrato anunciado nesta segunda-feira (7) cobre infraestrutura elétrica que ligará novos parques eólicos offshore à rede belga.

A operação é crédito de longo prazo, não subvenção. Segundo o BEI, uma primeira parcela foi sacada no fim de julho, o que demonstra início da execução financeira, mas não significa que o € 1 bilhão tenha sido integralmente desembolsado. A utilização restante dependerá das condições contratuais, do avanço das obras e dos marcos elegíveis do projeto.

A ilha artificial está sendo construída cerca de 45 quilômetros da costa da Bélgica. O empreendimento funcionará como plataforma de conexão: receberá eletricidade produzida no mar, elevará e organizará os níveis de tensão e enviará a energia ao sistema terrestre. Também foi concebido para permitir futura troca transfronteiriça de eletricidade, embora essa interligação não esteja pronta nem garantida pelo novo financiamento.

A linha de € 1 bilhão financiará, entre outros componentes, uma subestação de alta tensão de 220 quilovolts, estações de manobra de 66 quilovolts, transformadores e conexões em corrente alternada. O transporte até a costa deverá usar seis cabos trifásicos de 220 quilovolts entre a ilha e uma subestação em terra.

O anúncio veio poucas semanas depois da instalação do 23º e último elemento de fundação. Esse marco encerra uma etapa importante da estrutura marítima, mas não equivale à conclusão da ilha. Obras civis, lançamento de cabos, montagem de equipamentos, testes, energização e conexão dos parques eólicos ainda compõem uma sequência técnica e regulatória de vários anos.

O BEI já havia concedido € 650 milhões em 2024 para a primeira fase, voltada à construção física da ilha. Na ocasião, essa etapa tinha custo estimado de € 1,1 bilhão. A nova linha se destina à fase elétrica e não deve ser somada mecanicamente à estimativa antiga como se produzisse o custo total atualizado do empreendimento; o comunicado de 7 de setembro não publica orçamento global revisado.

A Elia informa ter otimizado o desenho antes da nova contratação. Em projetos pioneiros, otimização pode reduzir escopo, complexidade ou custo, mas não elimina riscos de integração, suprimentos e execução em ambiente marítimo. O indicador econômico relevante será a comparação entre orçamento atualizado, contratos adjudicados, contingências e cronograma, informações que precisam permanecer transparentes ao regulador e aos usuários da rede.

A previsão é conectar os primeiros parques da zona eólica Princess Elisabeth a partir de 2031. Até lá, a capacidade efetivamente liberada dependerá de licenças, contratação da geração, instalação dos cabos, disponibilidade dos equipamentos, testes e regras de acesso. A ilha habilita a integração da energia; ela não produz eletricidade e não substitui a decisão de investimento de cada parque eólico.

O projeto também cria a possibilidade de um futuro interconector com o Reino Unido. Possibilidade técnica não equivale a obra contratada. Uma ligação internacional exige acordo entre operadores, aprovação regulatória nos dois mercados, definição de capacidade, repartição de custos, regras comerciais e licenciamento específico antes de gerar intercâmbio físico.

Como operadora de transmissão, a Elia presta serviço regulado e recupera investimentos segundo regras tarifárias. O crédito em condições favorecidas pode reduzir o custo financeiro e, por consequência, limitar a pressão sobre consumidores, como sustenta o BEI. O efeito tarifário final, porém, dependerá do custo total reconhecido, da remuneração regulatória, do perfil de demanda e do uso efetivo dos ativos.

A implantação em ambiente marinho também demanda controle ambiental continuado. Estudos disponibilizados no registro público do BEI abrangem efeitos morfológicos e interação com áreas de proteção e habitats. A licença inicial não encerra o dever de monitorar fundo marinho, turbidez, ruído subaquático, aves, mamíferos e alterações na dinâmica costeira durante construção e operação.

Para o Brasil, que estrutura sua indústria eólica offshore e precisará definir redes marítimas, o caso belga mostra que a infraestrutura de conexão pode ser tão determinante quanto a geração. Planejamento antecipado, acesso compartilhado, coordenação entre concessões, licenciamento e transmissão e regras claras de alocação de custos evitam cabos redundantes e ativos ociosos.

Os próximos marcos verificáveis são a execução dos desembolsos, a conclusão da estrutura da ilha, os contratos dos equipamentos, o lançamento dos seis cabos, a energização e a conexão dos primeiros parques a partir de 2031. Até que essas etapas ocorram, o fato concreto é a contratação financeira da segunda fase e o avanço das fundações — não a entrada em operação do polo eólico nem do futuro interconector.